Nos balcões dos refeitórios do Centro e nos pontos de ônibus em frente às fábricas, o tom das conversas mudou. Já não há espaço para a paciência que caracterizou o primeiro ano de gestão. A última medição da Opción Consultores, correspondente ao segundo trimestre de 2026, deixou o governo de Yamandú Orsi diante de um espelho que mostra uma imagem incômoda: apenas 20% de aprovação, contra 48% que rejeitam a direção do Executivo.
É um fenómeno que nem os estrategas mais pessimistas da Frente Ampla tinham previsto. Nem nos anos dourados de José Mujica, nem durante as administrações de Tabaré Vázquez - quando o crescimento económico permitiu amortecer qualquer descontentamento - se tinha visto um desgaste tão prematuro e profundo. A sensação de que o governo “perdeu o rumo” deixou de ser uma crítica à oposição e passou a fazer parte do bom senso do cidadão comum.
O abismo entre a fala e a rua
O próprio presidente admitiu-o numa das suas últimas aparições, com aquele misto de franqueza e resignação que o caracteriza: “Se há gente que não está satisfeita é porque algo não vai bem”. Mas o problema para Orsi não é a confissão, mas sim a lacuna. Enquanto a Torre Executiva insiste com mesas de diálogo e anúncios de transformação, a senhora que faz as contas no supermercado vê como o dinheiro dá para menos toda segunda-feira.
A insegurança, uma das promessas de campanha que mais pesou nas urnas, continua a ser o calcanhar de Aquiles. Os vizinhos não reclamam mais apenas dos furtos nos bairros periféricos; O medo mudou-se para o centro e para as áreas onde as pessoas anteriormente caminhavam sem olhar para trás. Esta discrepância entre a promessa de mudança estrutural e a realidade quotidiana é o que está a perfurar a base de apoio do partido no poder.
O fim da “história” como guarda-chuva
Durante anos, a Frente Ampla soube construir um escudo narrativo capaz de justificar qualquer retrocesso. Foi uma história poderosa, com épico e místico, que conseguiu conter o descontentamento mesmo quando os resultados não foram bons. No entanto, esse guarda-chuva parece ter perdido as costelas. O uruguaio de 2026 está menos atento aos grandes discursos presidenciais e mais focado nos dados concretos da sua própria economia doméstica.
Os números da pesquisa não falam de ideologias, falam de frustração. Quando o apoio mal chega a 20% nas medições mais precisas, o partido no poder entende que não se trata mais de uma questão de comunicação ou de “ajuste de imagem”. Não há campanha nas redes sociais ou discurso em rede nacional que encobre uma geladeira vazia ou uma rua onde o vizinho não se sente seguro.
O desafio de um governo em retrocesso narrativo
A questão que agora circula nos corredores do Palácio Legislativo é o que Orsi fará com este cenário. A Frente Ampla voltou ao poder buscando reeditar suas confortáveis maiorias, mas encontrou uma realidade que exige dela muito mais do que seu roteiro pode oferecer. A “outra forma de fazer” de que falaram durante a campanha foi diluída numa gestão que, por enquanto, parece um veículo que patina na lama.
Embora os aliados políticos do presidente se perguntem se é altura de endurecer o discurso ou de se abrirem a novas coligações, a realidade continua. A lua de mel terminou há muito tempo. Agora, o governo enfrenta o desafio mais difícil de todos: reconquistar a confiança de uma cidadania que, pela primeira vez em muito tempo, abandonou a narrativa para começar a exigir resultados concretos.
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