Há erros médicos que se explicam pelo cansaço ou pela falta de recursos, mas há outros que atingem uma corda muito mais sensível e perigosa: a responsabilidade ética de quem tem a vida de um paciente nas mãos. A condenação de um anestesista, após ter sido denunciado por consumo de fentanil nas instalações do Hospital Italiano, não é apenas notícia policial; É um alarme que deve fazer tremer toda a estrutura de segurança do sistema de saúde.
O mais alarmante desta história não é o resultado judicial, mas a cronologia. Esse profissional já havia sido denunciado anteriormente por situações semelhantes. Como é que uma instituição de saúde, com os protocolos que deveriam estar em vigor, permitiu que uma pessoa nesta situação continuasse a ter acesso a um medicamento tão potente e letal como o fentanil dentro de uma sala de cirurgia?
Protocolos que falharam de cima para baixo
Fentanil não é xarope para tosse; É um opiáceo de alta potência que requer um controle muito rigoroso. O facto de alguém poder consumir este tipo de substâncias no seu local de trabalho, e de também poder continuar a trabalhar, fala de uma falha sistémica que vai muito além do comportamento individual. Estamos falando de um ambiente onde a vigilância deve ser impenetrável para proteger o paciente.
A Justiça agiu, sim, mas o fez depois que a situação ficou insustentável. A pergunta que os pacientes do Hospital Italiano – e de qualquer centro de saúde – se fazem hoje é: quem nos garante que não há outros casos? Quando os controlos se baseiam na confiança e não na supervisão constante, os riscos multiplicam-se.
Saúde mental e controle profissional
Não se trata de demonizar o vício, mas sim de reconhecer que a medicina é uma profissão que não permite o uso de substâncias. Um anestesista sob a influência de um opiáceo é um perigo latente, um risco que nenhum hospital deveria estar disposto a correr. A condenação é necessária, mas não é suficiente. É necessária uma revisão urgente da forma como os fornecimentos críticos são geridos e como a saúde e a conduta do pessoal médico são monitorizadas.
A instituição ficou numa posição extremamente delicada. Se as reclamações já estavam sobre a mesa, porque é que os mecanismos de separação não foram activados de forma eficaz? O silêncio institucional ou a morosidade burocrática nestes casos é, por si só, um cúmplice silencioso do que poderia ter culminado numa tragédia humana de proporções incalculáveis.
Um alerta para todo o sistema
Este episódio deveria servir de espelho onde todo o sistema de saúde uruguaio se vê refletido. A segurança do paciente não pode estar sujeita ao facto de um colega ser encorajado a reportá-lo ou se o consumo é evidente na sala de operações. A tecnologia de controle existe, os regulamentos estão escritos, o que falta é a determinação de aplicá-los sem exceções, independentemente da posição ou trajetória de quem está por trás do ambão.
Hoje a justiça encerrou um capítulo, mas a ferida na confiança pública está aberta. Os pacientes precisam saber que, ao entrarem na sala de cirurgia, quem os coloca para dormir é uma pessoa totalmente consciente e capaz de realizar a tarefa. Esse é o padrão mínimo de saúde que o Uruguai deve garantir, e casos como o do Hospital Italiano mostram que, por enquanto, essa garantia está longe de ser total.
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