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Uruguai, na contramão: a política que causou o colapso das compras internacionais

O que começou como um alívio para o consumidor terminou numa barreira protecionista. Após a implementação do novo imposto, o fluxo de remessas internacionais sofreu uma desaceleração histórica.

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Autor: Jesus Vargas Por Jesus Vargas

A cena já é lembrança de outros tempos. Há apenas um ano, os uruguaios comemoraram a chegada de pacotes de plataformas como o Temu com a mesma expectativa com que esperam um presente. Nos escritórios, as conversas giravam em torno de quanto tempo demorava o envio ou que barganha eles haviam conseguido por apenas alguns dólares. Hoje, esse clima mudou radicalmente. O entusiasmo foi substituído pelo cálculo e pela desilusão: o “imposto Temu” veio impor um limite à liberdade de escolha.

De acordo com os últimos registos da Direção Nacional das Alfândegas, o impacto foi imediato e avassalador: uma quebra de 43% nos envios durante o mês de maio, primeiro mês do novo regime fiscal. O número de 112.355 embalagens não é apenas um número frio num relatório técnico; É uma prova irrefutável de que quando o Estado põe a mão no bolso do consumidor, o mercado congela.

O custo de “proteger” alguns

O argumento oficial foi o mesmo de sempre: buscar “tratamento equitativo” com o comércio tradicional. Porém, na prática, o que se fez foi penalizar o cidadão comum. Com a imposição de 22% de IVA nas compras internacionais, o governo da época não só encareceu o produto final, como acabou por sufocar uma alternativa de consumo que tinha democratizado o acesso a bens que, de outra forma, seriam inacessíveis no mercado local.

Enquanto os comerciantes tradicionais comemoravam a proteção estatal, o consumidor uruguaio sentiu o golpe. As redes sociais – onde antes eram compartilhadas capturas de tela dos pedidos – agora estão repletas de reclamações sobre os custos adicionais e a burocracia que agora envolve cada compra. As pessoas cansaram de fazer malabarismos para trazer uma peça de reposição, uma ferramenta ou uma peça de roupa, para acabar pagando uma sobretaxa que, em muitos casos, inviabiliza a operação.

A política que pune o consumidor

É irônico. À medida que o mundo avança no sentido da facilitação do comércio e do acesso global, o caminho do recuo foi aqui escolhido. A modificação do regime de franquia – que agora permite que os 800 dólares sejam gastos de uma só vez, mas sob um regime fiscal mais oneroso – parece mais uma tentativa de angariar dinheiro e apaziguar sindicatos influentes do que uma verdadeira medida de apoio ao desenvolvimento comercial.

Nos corredores das feiras e nas conversas nos cafés, o sentimento é unânime: as pessoas perderam o interesse. O “efeito Temu”, que permitiu a milhares de uruguaios o acesso a produtos básicos a preços razoáveis, foi desmantelado por um zelo na arrecadação de impostos que ignora a agitação social. A mensagem é clara: se quiser comprar barato tem que pagar o “pedágio” ao Estado.

Números que não mentem

Embora os dados mostrem que nos primeiros cinco meses do ano ainda houve crescimento homólogo, o mês de maio marca uma quebra de tendência que não permite duplas leituras. A queda para os níveis de Junho de 2024 – quando o fenómeno das plataformas chinesas estava apenas a emergir – confirma que o entusiasmo foi massacrado pela política fiscal.

No final, o governo alcançou o seu objetivo: reduzir o fluxo de embalagens. Mas fez isso às custas da liberdade de consumo dos uruguaios. Enquanto o Estado se vangloria de aplicar medidas de controlo, os cidadãos ficam sem alternativas e com menos dinheiro no bolso. A questão que fica é se valeu a pena sacrificar o bem-estar de milhares de consumidores para sustentar um modelo que, longe de inovar, prefere fechar as portas e cobrar por cada fresta.


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