Na política uruguaia há nomes que parecem não perder a validade, mesmo depois de deixarem seus cargos. A de Jorge Díaz, ex-procurador judicial, é uma delas. Desta vez, foi a senadora Graciela Bianchi quem mais uma vez agitou as águas, lançando uma acusação direta e pesada: para o legislador, muitas das dificuldades que o governo atravessa hoje têm um arquiteto intelectual no passado recente do Ministério Público.
“Ele é o responsável pela maior parte do que acontece com o governo”, afirmou Bianchi em entrevista recente, reafirmando uma tese que defendeu em diversas ocasiões: a estrutura e o funcionamento deixados pela gestão de Díaz no Ministério Público deixaram “as mãos atadas” do atual partido no poder.
Um “legado” desconfortável?
A crítica de Bianchi não é nova, mas é insistente. O centro do seu argumento aponta para a concepção da Procuradoria-Geral da República após a implementação do novo Código de Processo Penal (CPP). Segundo o senador, a arquitetura institucional que se instalou durante os anos Díaz não foi neutra, mas deixou “minas antipessoal” que hoje afetam o desenvolvimento da gestão governamental.
Para o partido no poder, o Ministério Público tem sido repetidamente um contrapoder que complica a agenda de segurança e outras áreas sensíveis. Bianchi, que não costuma medir as palavras na defesa de sua posição, afirma que Díaz construiu uma estrutura de poder “à sua medida” que hoje, mesmo fora do cargo, continua a exercer uma influência determinante no sistema judicial e na política criminal.
O debate sobre a independência do Poder Judiciário
Por outro lado, vozes críticas a Bianchi apontam que as suas palavras são um ataque à independência técnica da Justiça. “Quando o governo não consegue processar a sua agenda judicial, procura um bode expiatório”, respondem eles da calçada oposta. Para os defensores da antiga gestão do Ministério Público, o trabalho de Díaz foi estritamente técnico e os problemas atuais do governo não se explicam pela estrutura do Ministério Público, mas pela sua própria gestão.
O ponto crítico é, na verdade, muito mais profundo. Esta é a velha discussão sobre o controle político das organizações autônomas. Para parte do Partido Nacional e seus aliados, o Ministério Público – sob a administração Díaz – tornou-se politizado; Para a Frente Ampla e os setores judiciais, o que Bianchi está fazendo é uma tentativa de pressionar o sistema de justiça para se alinhar às necessidades do governo no poder.
As consequências de um confronto implacável
O que é evidente é que este tipo de declarações marcam o ambiente do Parlamento. Não se trata apenas de uma censura a um antigo funcionário, mas de uma estratégia de comunicação política que procura explicar ao eleitorado porque é que certas promessas de campanha ou objectivos de segurança pública não avançaram como esperado.
Bianchi sabe que dar nome e sobrenome aos problemas gera apoio em sua base eleitoral. Ao apontar Díaz como “responsável”, o senador transfere a responsabilidade pelas falhas de gestão para um ator externo, transformando a gestão judicial num campo de batalha político permanente.
Entretanto, o debate subjacente – sobre como o nosso Ministério Público deveria realmente funcionar para ser eficiente e transparente – está enterrado sob o ruído da fenda. O país continua a assistir enquanto os actores políticos disputam o controlo das agências de justiça, esquecendo que a confiança nestas instituições é, a longo prazo, o activo mais valioso que qualquer democracia possui.
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