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Mansões e carros do narcotráfico: o saque milionário que agora financia a saúde no Uruguai

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Autor: Roy Rodriguez Por Roy Rodrigues

À porta de um armazém, a cena é quase surreal. Entre caixas com milhares de celulares apreendidos em operações contra o microtráfico e carros de alto padrão que antes apareciam nas ruas como símbolos do poder das drogas, há uma mudança de época na persecução criminal. O Estado uruguaio passou da passividade para uma estratégia mais agressiva: esvaziar os bolsos daqueles que operam à margem da lei.

Segundo dados obtidos pelo El País num pedido de acesso à informação, a magnitude é considerável. Só nos últimos dois anos e meio, o Fundo de Activos Apreendidos do National Drug Board (JND) assumiu o controlo de milhares de activos, desde simples electrodomésticos a aeronaves, com um valor medido em milhões de dólares. Não se trata mais apenas de aproveitar para economizar; Trata-se de conseguir devolver à sociedade uma parte do que o crime tentou tirar dela.

Da mansão ao leilão

A engenharia por trás desse processo é complexa. Não se trata apenas de pegar um bem e colocá-lo à venda. Envolve uma estreita coordenação entre juízes, procuradores e a JND para evitar que os bens “desapareçam” antes de o Tribunal emitir o confisco. A memória de erros passados ​​– como o edifício da Cidadela que desapareceu enquanto as autoridades observavam – serviu de lição. Hoje a ordem é clara: medidas cautelares imediatas.

O mercado se move rapidamente. Recentemente, um apartamento em Pocitos foi leiloado com tanto sucesso que cerca de 70 pessoas vieram visitá-lo, atraídas pela possibilidade de adquirir um bem de origem ilícita em licitação legal. Nos próximos três meses, a agenda de leilões inclui imóveis na Gold Coast, Montevidéu e Punta del Este. O objectivo é claro: ir ao cerne da estrutura financeira criminosa.

Uma mudança no ônus da prova

Por que estamos vendo mais convulsões agora do que há uma década? A resposta está na evolução legislativa. Com a lei contra a lavagem de dinheiro de 2017, as regras do jogo mudaram drasticamente. “Agora quem perde sabe que perde”, comenta um advogado criminalista. O ónus da prova foi invertido: já não é apenas o Estado que deve provar a origem ilícita, mas o arguido deve provar a legalidade dos seus bens.

Esta nova ferramenta, chamada “confisco alargado”, permite-nos até ir atrás de bens que estão em nome de familiares ou amigos próximos, quebrando aquela rede de testas de ferro que anteriormente protegia os chefões. É uma mensagem política e judicial que começa a ser absorvida: as organizações criminosas, que agora contratam empresas de contabilidade para tentar dar uma aparência de legalidade às suas fortunas, encontram-se com um Estado que aprendeu a seguir o rasto do dinheiro.

Para onde vai o dinheiro?

O objetivo final desta gestão não é acumular troféus. A distribuição dos recursos arrecadados – seja pela venda de um carro, joias ou propriedade – tem destinos sociais críticos. 25% vão diretamente para o Fundo de Recursos Nacionais para financiar medicamentos de alto custo, enquanto percentagens significativas reforçam o Ministério Público e o Ministério do Interior.

No entanto, o sistema não é isento de controvérsias. A atribuição directa de veículos a ministérios ou agências estatais gera por vezes ruído político. No entanto, o Fundo defende a eficiência: por vezes, o custo de manutenção de um activo até ser leiloado ultrapassa o seu valor de venda e, nesses casos, colocá-lo a trabalhar para a polícia é mais lógico.

O desafio da sustentabilidade

Porém, a estrada não está livre de buracos. A gestão de activos complexos – como cavalos de corrida que perdem valor sem treino ou carregamentos de cereais – exige uma agilidade que nem sempre é fácil de conseguir na administração pública. A equipe, pequena mas persistente, percorre o país insistindo junto aos juízes sobre a importância de aplicar o “bom senso”: confiscar o que é objeto do crime, sem cair no absurdo de reter objetos que só geram custos de armazenamento.

No final das contas, a apreensão destes bens é mais do que uma transação económica. É uma tentativa de desmantelar a estrutura simbólica que o tráfico de droga e o branqueamento de capitais constroem em torno das suas figuras. “Esvaziar os bolsos”, como se costuma dizer nos corredores do JND, é talvez a forma mais contundente que o Estado tem de dizer que, perante a lei, nenhum saque é eterno.


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