Num escritório da Cidade Velha, um administrador da Justiça Eleitoral empilha pastas que cheiram a papel velho. No interior, os recibos de combustível de um posto de gasolina no interior, a impressão de faturas de panfletos coloridos e os recibos de aluguer de instalações de campanha coexistem numa ordem precária. Durante anos, este foi o ritual: prestar contas que, em muitos casos, eram pouco mais do que um exercício de boa vontade. Mas o caso da carrinha presidencial, que manteve o país em suspense durante semanas, acabou por ser o gatilho para que o sistema – quase por necessidade – começasse a mudar.
Hoje, a supervisão do financiamento das campanhas políticas no Uruguai atravessa o seu momento mais crítico. Pela primeira vez, o Tribunal de Contas foi chamado a auditar o que antes mal estava arquivado. O resultado é um mapa onde as despesas declaradas até o último peso coexistem com uma “área cinzenta” que os especialistas conhecem bem, mas que raramente chega às manchetes.
O problema não é só o que fica registrado, mas o que escapa da planilha Excel. Enquanto os partidos declaram as suas receitas provenientes de contribuições estatais por voto – o principal motor de todas as disputas – as doações privadas e os empréstimos em espécie operam sob uma lógica muito mais difusa. “Como é que se regista o empréstimo de um camião para um fim de semana ou a utilização de um espaço que um militante lhe cede gratuitamente?” pergunta um consultor de comunicação política que trabalhou nas últimas três campanhas. "Esse é o verdadeiro desafio da transparência."

A era das auditorias: mudou o jogo?
A aprovação da lei de 2024 alterou as regras do conselho. O Tribunal de Contas exige agora apoio documental e os partidos tiveram de recuperar o atraso, por vezes pressionando. “Eles têm sido rigorosos com as receitas”, reconhece um líder da linha da frente que teve de rever as suas próprias contas perante os novos auditores.
Porém, há uma armadilha implícita neste novo controle: o que é declarado é auditado, mas é quase impossível auditar o que é omitido. A “despesa da formiga” – aquele pagamento em dinheiro para um almoço de campanha ou um pequeno frete urgente – é o fantasma que assombra todos os comandos. Esse dinheiro, que soma quantias consideráveis no final do dia das eleições, costuma ser o buraco negro onde a transparência colide com a realidade do território.
Entretanto, os saldos excedentários que permanecem após cada eleição continuam a ser um terreno pantanoso. Quando os votos superam as expectativas e o Estado transfere mais dinheiro do que o necessário, o destino desse restante é geralmente discricionário. Alguns grupos reinvestem-no em actividades partidárias, outros utilizam-no para cobrir dívidas de transição e, por vezes, a linha entre o fundo de campanha e os activos do líder torna-se perigosamente tênue.






