O sistema de saúde uruguaio atravessa uma das tensões mais profundas da sua história recente. O epicentro do conflito não é uma epidemia, mas a crescente judicialização do acesso a Medicamentos de alto custo, fenômeno que deixou de ser uma exceção para se tornar um caminho paralelo de gestão em saúde que ameaça a sustentabilidade do modelo universal.
Durante o último ano, o número de julgamentos de amparo atingiu um recorde histórico, ultrapassando 2.100 ações judiciais. Esta tendência fez soar o alarme no Ministério da Saúde Pública (MSP) e no Fundo de Recursos Nacionais (FNR), cujas autoridades sustentam que, sem uma reforma na forma como estas reivindicações são processadas, o sistema financeiro que apoia a atenção de todos os uruguaios poderá enfrentar um colapso iminente.
O dilema ético da “ficha curta”
A Ministra da Saúde Pública, Cristina Lustemberg, foi franca sobre isto nas suas recentes aparições perante o Senado. O dirigente sustenta que a obrigação do Estado de garantir o bem-estar colectivo colide directamente com as sentenças judiciais impostas contas não planejado. Segundo Lustemberg, a despesa anual derivada destas ações serviços jurídicos já ronda os 150 milhões de dólares, valor que paradoxalmente supera o que se investe na cobertura regular de milhares de pacientes sob protocolos padronizados.

O problema é que o Poder Judicial geralmente falha em favor do indivíduo com base no direito constitucional à vida, mas muitas vezes o faz ignorando o rigor técnico. Alicia Ferreira, presidente suplente da FNR, alerta que os magistrados estão a condenar o Estado a pagar por tratamentos que, em muitos casos, carecem de provas científicas sólidas sobre a sua real eficácia para a patologia específica do demandante.
Preços exorbitantes e laboratórios especializados
Um dos pontos mais críticos deste problema é a distorção da preços no mercado farmacêutica internacional. As autoridades denunciam a existência de valores “escandalosos” e “abusivos” por parte de laboratórios especializados na importação direta sob ação judicial. Houve casos documentados em que o mesmo medicamento pode variar o seu preço em dezenas de milhares de dólares, dependendo do fornecedor e da urgência do mandato. judicial.
Aproximadamente um terço das ações movidas correspondem a medicamentos que sequer estão registrados no país. Isto obriga o Estado a fazer compras diretas no exterior sem capacidade de negociação, ficando à mercê de preços fixados unilateralmente pela indústria, o que drena recursos que originalmente deveriam ter sido destinados à incorporação de novos benefícios para a maioria da população.

A busca por uma solução sistêmica
A encruzilhada levanta uma questão fundamental sobre a equidade: como equilibrar o direito do paciente de esgotar todas as suas chances de sobrevivência com a responsabilidade do Estado de manter um sistema que cuida de três milhões de pessoas? A “ética da escassez” sugere que cada dólar investido num tratamento sem provas comprovadas é um dólar que é subtraído de programas de prevenção, cuidados primários ou medicamentos básicos que beneficiam a maioria.
Da FNR salientam que a judicialização massiva distorce o planeamento estratégico. Se o orçamento for consumido em sentenças individuais, fica bloqueada a possibilidade de integração técnica e orçamentária de novos medicamentos ao Formulário de Medicamentos Terapêuticos (FTM). O desafio da próxima legislatura será encontrar um quadro regulamentar que permita canalizar estas reivindicações para que a ciência e a economia caminhem de mãos dadas com a justiça, evitando que a procura do bem-estar individual acabe por fazer explodir o pilar da Saúde pública uruguaia.
Inscreva-se no Uruguai Al Día
Receba as notícias mais importantes diretamente no seu email. Informação clara, independente e atualizada todos os dias.
Siga-nos no WhatsApp
Cadastre-se em nosso canal oficial e receba alertas, novidades e conteúdos exclusivos do Uruguai Al Día.
🔔 Entre no canal do WhatsApp