Por Gonzalo Sualina | Uruguai por dia
Nos últimos cinquenta anos, o Uruguai vangloriou-se de ter um dos sistemas de saúde mais robustos e equitativos da América Latina. No entanto, por baixo desta fachada de cobertura universal e profissionalismo, reside uma realidade que tem sido silenciada durante anos: a impunidade para os erros médicos, a protecção corporativa dos profissionais de saúde e o abandono sistemático das vítimas de negligência médica. Esta pesquisa, realizada por Uruguai por dia Ao longo de seis meses, baseou-se em entrevistas com médicos, enfermeiros, funcionários de hospitais, familiares de vítimas e peritos jurídicos, todos os quais solicitaram anonimato devido ao receio de represálias.
O foco está no departamento de Salto, onde se concentra um padrão alarmante: há cinco décadas não se registra uma única inabilitação profissional permanente, apesar de dezenas de denúncias de negligência, abuso e omissão. Esta primeira parte aprofunda o contexto histórico e a cultura institucional que protegeu os profissionais envolvidos.
Capítulo I: Um sistema que não pune
“Aqui a ordem é clara: não toquem nos médicos”, afirma um funcionário administrativo do Hospital Regional de Salto, com mais de 25 anos de experiência. «Os erros são varridos para debaixo do tapete. Se algo fica complicado, é negociado em silêncio. O seu depoimento coincide com o de outros cinco profissionais de saúde ouvidos na região Norte do país. Todos descrevem um ecossistema onde as falhas clínicas são processadas internamente, com resumos que raramente resultam em sanções reais e com uma cultura arraigada de encobrimento institucional.
No Uruguai, as denúncias de más práticas devem ser canalizadas através dos canais administrativos (através do MSP), éticos (perante a Faculdade de Medicina do Uruguai) ou judiciais (na justiça civil ou criminal). Mas, na prática, a intersecção de interesses, burocracia e corporativismo significa que a maioria fim das investigações no nada. Entre 1970 e 2025, nenhuma fonte consultada conseguiu confirmar uma inabilitação definitiva por negligência médica em Salto.
«Houve médicos que abandonaram pacientes, outros que diagnosticaram mal e causaram mortes evitáveis. Alguns recaíram. Mas não há registos públicos de que tenham sido impedidos de continuar a trabalhar", afirma uma fonte jurídica próxima dos processos cíveis contra os centros de saúde do interior. "Na melhor das hipóteses, são transferidos para outro departamento".
Capítulo II: O silêncio que mata
O jornalista de Uruguai por dia coletou depoimentos de pelo menos sete famílias que vivenciaram mortes suspeitas ou procedimentos negligentes no sistema de saúde de Salto. Nenhum deles conseguiu sancionar profissionalmente o médico responsável. Alguns nem sequer receberam respostas do MSP.
Uma enfermeira com 15 anos de serviço público resume sem eufemismos: «Existe uma rede de proteção. Não é conveniente que os patrões tenham escândalos, por isso aqueles que falham estão protegidos. Nós, enfermeiros, somos os primeiros a ver isso, mas não temos voz. Se você denunciar, você está fora."
Num documento interno a que este meio de comunicação teve acesso, confirma-se que em pelo menos três casos notificados entre 2006 e 2017 houve laudos técnicos que indicavam negligência médica direta. Porém, em nenhum deles o profissional envolvido foi suspenso além de licença temporária ou remanejamento. Em todos os casos, a instituição assumiu a responsabilidade financeira, evitando que o processo se transformasse em sanções pessoais.
«Quando um paciente morre por erro médico, a família entra em choque e a última coisa que quer é enfrentar todo o aparelho do Estado. O sistema sabe disso. “Eles brincam com a dor, com a falta de informação, com o desespero”, afirma uma psicóloga forense consultada para esta reportagem.
Capítulo III: Como funciona a impunidade
O ciclo é previsível: ocorre um erro grave, a direção do hospital avalia internamente, abre-se um resumo que pode durar anos. Enquanto isso, o médico continua praticando. Em muitos casos, é acionada uma ação cível, que pode resultar em indenização para a família. Mas essa condenação económica recai sobre o Estado, não sobre os profissionais.
Em 2023, um caso extremo quebrou parcialmente a dinâmica: um médico plantonista foi demitido por tratar embriagado, o que levou à morte de um paciente. Embora tenha sido afastado do cargo, não há garantia de que não exercerá em outro centro ou na rede privada. O MSP não oferece listas públicas de deficientes.
A segunda parte desta investigação centrar-se-á em casos documentados de abuso, negligência e encobrimento dentro do sistema público e privado de Salto, incluindo resumos opacos, conflitos de interesse e retaliação contra reclamantes.
Capítulo IV: Casos enterrados, vítimas silenciadas
Durante a investigação, Uruguai al Día acessou registros parciais de pelo menos 12 súmulas iniciadas em Salto por suposta negligência médica entre 2005 e 2023. Em nenhuma delas ocorreu desqualificação profissional definitiva. Alguns acabaram arquivados por “falta de mérito”, outros foram encerrados com repreensão verbal. Em todos os casos, as instituições recusaram-se a prestar declarações oficiais.
Um ex-funcionário do MSP, que trabalhava na Direcção Geral de Inspecção, disse a este meio que muitas vezes os ficheiros são parados por "influências ou recomendações de alto nível". “Se o médico é conhecido ou tem ligação com hierarquias, ele não se toca”.
Casos com consequências devastadoras para as famílias ficaram sem solução durante décadas. Uma mãe entrevistada descreveu como sua filha de 14 anos foi internada com dores abdominais e recebeu alta sem estudar. Horas depois, ele morreu de apendicite perfurada. A história médica foi modificada. «Nunca soube o nome do médico que a tratou. Ninguém me deu explicações."
Em outros casos, o abuso foi de natureza sexual. Um jovem relatou que um profissional de saúde o submeteu a “procedimentos invasivos injustificados” durante uma consulta de rotina. Ao tentar denunciar, ele encontrou obstáculos legais e médicos. «Eles não acreditaram em mim. "Disseram-me que eu poderia arruinar a carreira de um profissional respeitado."
Capítulo V: O preço do silêncio
O medo de denunciar é transversal. Enfermeiros, administradores e até médicos de nível médio preferem permanecer calados. Uma ginecologista do setor privado disse ter visto negligência “repetida” por parte de colegas. «Mas se você fala, eles te apagam do mapa profissional. “As clínicas param de contratar você, os pacientes desaparecem.”
Um ex-diretor de hospital do litoral descreveu o sistema como “um clube fechado onde a imagem da instituição é priorizada em detrimento da segurança do paciente”. Reconheceu que muitas vezes os conselhos médicos são compostos por colegas dos acusados, o que cria um preconceito intransponível.
Os membros da família também pagam um preço. Alguns contaram como, depois de denunciarem publicamente casos de negligência médica, receberam ameaças, assédio em redes sociais e até tentativas de difamação por parte de profissionais ligados ao sistema.
Na terceira parte desta investigação serão analisados os mecanismos institucionais que sustentam esta impunidade: a falta de transparência no MSP, a passividade da Faculdade de Medicina e a ausência de controlos eficazes sobre a conduta profissional nos departamentos do interior do país.
Capítulo VI: Instituições que não respondem
Ao longo desta investigação, Uruguai por dia apresentou solicitações de acesso à informação ao Ministério da Saúde Pública (MSP), à Faculdade de Medicina do Uruguai (CMU) e à Administração dos Serviços Estatais de Saúde (ASSE). Em nenhum dos casos foi fornecida lista de médicos sancionados no departamento de Salto entre 1970 e 2025. Algumas respostas aludiam à “protecção de dados pessoais”, outras simplesmente não chegaram.
Essa opacidade não é coincidência. Fontes consultadas dentro do próprio MSP confirmaram que Não há banco de dados público atualizado de profissionais desqualificados., nem mesmo para consultas internas entre instituições. «Cada hospital gere a sua própria história. Se um médico teve problemas em uma cidade e se muda, ninguém o impede”, disse um inspetor de saúde aposentado.
A Faculdade de Medicina, criada para garantir a ética profissional, emitiu poucas sanções desde a sua fundação. «A maioria das reclamações são apresentadas. O sistema é garantista ao ponto do absurdo. Não há vontade política ou sindical de limpar a profissão de quem a degrada”, declarou um ex-vereador da instituição.
Na ASSE as respostas foram ainda mais evasivas. Os diretores regionais se recusaram a dar entrevistas. Um responsável de nível intermédio confessou que a “governança institucional” é priorizada em detrimento do esclarecimento dos casos. «Um escândalo num hospital do interior pode custar um endereço. Então tudo é negociado.
Capítulo VII: A cumplicidade do sistema judicial
O aparelho judicial também não oferece caminhos fáceis. A maioria dos processos por negligência médica no Uruguai são civis, o que envolve longos pareceres de especialistas, honorários caros e anos de litígio. Para a maioria das famílias do interior, processar é inviável. «Não é só o dinheiro. É reviver a dor continuamente, enquanto enfrentamos um sistema que protege os culpados", disse uma mãe cujo filho morreu depois um erro cirúrgico.
O sistema de justiça criminal é quase inexistente. De 1985 a 2023, foram registrados apenas uma dezena de processos criminais contra médicos em todo o país, nenhum deles em Salto. Nos poucos casos que chegaram a essa fase, os procuradores tiveram de enfrentar a relutância dos peritos, a falta de vontade das testemunhas e a pressão dos sindicatos.
Um juiz do interior confessou com reserva: «Quando um processo por negligência médica entra no tribunal, já sabemos que vai ser complexo. Ninguém quer condenar um profissional se puder evitá-lo. A prova tem que ser irrefutável e às vezes não é suficiente.
Capítulo VIII: O custo humano da impunidade
Nas entrevistas realizadas para esta investigação, 18 pessoas contaram histórias ligadas a erros médicos: mortes evitáveis, diagnósticos falhados, intervenções desnecessárias, partos mal assistidos, omissões fatais. Desses casos, apenas dois tiveram decisão judicial. Em nenhum deles houve sanções profissionais eficazes.
Um pai contou como sua esposa chegou ao hospital com contrações e foi mandada para casa três vezes. Na quarta vez, a menina nasceu sem sinais vitais. «Eles nos deram um pedido de desculpas. “Nem sabíamos o nome do médico que a tratou.”
Outra história chocante envolve um jovem com deficiência que foi deixado sozinho durante 17 horas numa enfermaria de internamento. Quando sua mãe voltou, encontrou-o desidratado e com escaras. «Ninguém respondeu por isso. "Eles me disseram que a equipe estava sobrecarregada."
Em ambos os casos, as famílias enfrentaram instituições que priorizaram a gestão de conflitos em detrimento da verdade. Documentos foram modificados, depoimentos foram omitidos e as investigações internas nunca foram concluídas.
Capítulo IX: Reformas urgentes, silêncio garantido
A conclusão é clara: o Uruguai carece de um sistema de responsabilização eficaz na área médica. Não existem mecanismos de controlo cruzado entre MSP, ASSE, CMU e Justiça. Não existem auditorias independentes, nem bases de dados públicas, nem protocolos claros para agir em relação às reclamações.
Especialistas em direito sanitário consultados propuseram diversas reformas: criminalização da negligência grave, obrigação de publicar os nomes dos profissionais sancionados, criação de uma agência de inspeção independente. Nenhum prosperou no Parlamento.
Enquanto isso, as vítimas continuam a acumular-se no anonimato. Medo, vergonha e desamparo são as constantes. Como disse um dos entrevistados: «Aqui quem erra continua trabalhando. “Quem denuncia, desaparece.”
Epílogo: A urgência de olhar para frente
O Uruguai precisa urgentemente quebrar o pacto de silêncio que protege a impunidade médica. Esta pesquisa não é uma acusação contra a profissão, mas contra o sistema que a encobre. Bons médicos também estão presos nesta teia de medo e omertà institucional.
Até que a justiça seja garantida às vítimas, a transparência nos processos e sanção real Para aqueles que violam o seu juramento, cada novo erro continuará a ser uma tragédia anunciada.
Inscreva-se no Uruguai Al Día
Receba as notícias mais importantes diretamente no seu email. Informação clara, independente e atualizada todos os dias.
Siga-nos no WhatsApp
Cadastre-se em nosso canal oficial e receba alertas, novidades e conteúdos exclusivos do Uruguai Al Día.
🔔 Entre no canal do WhatsApp