Nos corredores do Palácio Legislativo, o ar foi cortado com faca nesta terça. A ministra Cristina Lustemberg, que já se equilibrava na corda bamba devido ao caso Soledad Barrera, teve que enfrentar uma nova enxurrada de perguntas. Desta vez, o golpe não veio de fora, mas de dentro: um erro administrativo, quase de iniciante, deixou o Ministério da Saúde Pública (MSP) em posição de absoluta vulnerabilidade diante do processo de Inés Miralles, a anestesista condenada por homicídio culposo.
O cerne do conflito é tão simples quanto devastador para a imagem da pasta: o Ministério respondeu extemporaneamente à ação anulatória movida pela profissional contra sua inabilitação. No mundo dos dossiês, um dia de atraso pode significar a perda de uma batalha antes do início da guerra.
O dia em que a burocracia se voltou contra
A cena ocorreu meses atrás, mas o impacto explodiu agora. A equipe jurídica do MSP deixou expirar o prazo para resposta à ação. De acordo com o Código do Contencioso Administrativo de 2024, esta falta de resposta não é um procedimento simples; Trata-se, aos olhos da lei, de uma admissão tácita dos factos alegados pela contraparte.
Quando os advogados do Ministério tentaram reagir, já era tarde demais. Na tentativa de salvar os móveis, propuseram a inclusão de testemunhas – provas testemunhais – para contrariar a história de Miralles. Mas a juíza Lucía Techera Tealdi não acreditou no argumento. Em sua decisão interlocutória, ele foi contundente: como o Ministério não respondeu em tempo hábil, os fatos da ação são considerados verdadeiros. A porta das testemunhas se fechou.
O juiz, porém, deixou uma pequena lacuna aberta ao autorizar uma perícia técnica médica. “Não tenho conhecimentos médicos”, argumentou o juiz, marcando uma clara distância entre o erro do Ministério e a necessidade de compreender a responsabilidade médica para além dos papéis.
A defesa no Parlamento e o fantasma da ocultação
Fabiana Alonso, vice-diretora do departamento jurídico, tentou baixar os decibéis do assunto perante a imprensa. Ele falou de “erro humano” e de uma carga de trabalho sufocante entre testes e procedimentos. É a explicação que costumamos ouvir nos corredores das repartições públicas quando a realidade ultrapassa a norma.
Mas para a oposição o discurso não funcionou. O senador branco Martín Lema, que já tinha o processo sob escrutínio, não escondeu nada. “A informação foi escondida do Parlamento”, atirou assim que saiu da comissão. Segundo Lema, quando as autoridades compareceram anteriormente perante senadores e deputados, já sabiam do erro e preferiram o silêncio.
Esse silêncio, que na política costuma ser mais alto que um grito, causou uma perda imediata de confiança. A indignação da oposição não se deve apenas ao fato administrativo, mas também à percepção de que, no Ministério da Saúde, a transparência virou item de luxo.
Um cenário de tensão constante
Lustemberg, por sua vez, mantém o rumo. Insiste que a sua decisão de reduzir a desqualificação de Miralles de cinco para três anos se baseou em critérios técnicos e num carácter gradual das sanções que já foi aplicado noutros casos. “Não conheço o doutor Miralles”, repetiu quase como um mantra, procurando distanciar-se de qualquer suspeita de favoritismo que flutua no ar desde que 11 membros da Comissão de Saúde Pública renunciaram em massa, em protesto.
Enquanto a ministra tenta sustentar sua gestão, o caso avança no Tribunal de Contencioso Anulatório. A investigação administrativa dentro do Ministério já está em curso, buscando os responsáveis pelo “esquecimento” que hoje mantém o Estado na corda bamba.
Na rua, longe dos dossiers e das explicações parlamentares, fica o sabor amargo de um processo que parece não encontrar a paz. Para a família de Soledad Barrera e para a opinião pública, cada notícia sobre este julgamento reforça a sensação de que, na justiça administrativa, o erro humano acaba sempre por ser pago com a mesma moeda: a dúvida sobre o sistema.
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